05/04/2026

Lágrimas de chuva

Para Afonso Celso



No banho de chuva olhos sexagenários veem antigo cenário.
Quando nu banhava na bica...
Chora e ri.
Lágrimas de chuva lhe embaçam a vista.
o caminho para a sabedoria é difícil
assim como é difícil
todo caminho
para o que não existe
Neste presente insone
ando a desejar que o tempo volte,
revoe, revolte,
faça redemoinhos...
até um futuro que, de certo, é incerto... e nada mais.
para um bom cearense
fortalezense
o mar está no vento
as sereias são aves de arribação
o marulho, canção
os homens, conterrâneos
concidadãos

é
o mar
está no vento

e
a direção...
...no rumo da venta

os deuses dançam


os deuses dançam
sobre o túmulo de deus
multiplicam-se
tablets
i-phones
net-books
smart-phones
mensagens mis
deuses do início
do meio
sem fim

Paraíso

No mosteiro em que te refugiastes
tens uma cela, um catre - a abençoada penumbra.
Ah! uma janela para a claridade... e saudade nenhuma.


Na milenar Alexandria

aos olhos do Alencarino

a Esfinge Egípcia sorri para a Coluna Grega...

Ah! deixa de ser Besta!

para mim náufrago
todo livro é uma ilha
toda história uma escora
toda página uma manobra
pois se viver é preciso
navegar é sempre um risco
todo homem é uma ilha
e
um oceano de possibilidades

a fé remove montanhas
mas em alguns casos
nos lega gorilas tamanhos
obtusos violentos mansos
a fé move insanos

erótica

quem ama
na mata
mata?
nem ata nem desata
caga
devagar (não) se vai ao longe
o hábito (não) faz o monge
e, às vezes,
as palavras me constrangem
eu não sou eu
eu não sou o outro
(nem o Outro)
sou remédio
para o tédio
:
retédio

de lacuna em lacuna

de lacuna em lacuna, o amor
até aparecer a dor (na coluna)
até perder o sentido das runas
até caminhar para as dunas, última lacuna

aleijadinho

fui dormir tão cansado
que acordei alijado
de mim

para que?

para que perfil
se tu tens cara
para que cara
se tu tens fala
para que fala
se tu tens escuta
para que escuta
se tu estais muda

para Cheliabinsk

planeta cu
sistema solar de merda
qualquer cisco faz cratera
entre o acender
e o apagar
da vela
o sopro
do tempo louco
da quimera

obra pus ferida prima

nem toda obra é prima
nem tudo se vê para crer
nem toda mona é lisa
nem todo dia é d
nem toda vera é prima
nem todo ouro reluz
nem toda festa tem clima
nem toda ferida verte pus

ninhos

uma coroa de pregos
uma cruz de espinhos
é bom respeitar os vizinhos

com fusão

que confusão
uma bala de canhão no meu coração
uma bala de festim no meu jardim

falo da desproporção
entre afeto, mão e razão
entre sexo, mano e tezão

que confusão...

Da borda do centro vazio

da borda do centro vazio
olha para mim este vadio
a quem plagio
com quem gladio
nossa queda está por um fio
da borda do centro vazio
noite insone
noite assombrada
que venha o dia com seus medos
pois já estou acostumado

se vira

da dívida externa
à dívida interna
a dúvida duvida
vida dura ou dura vida?

Abraçaí

abraça-me abaçaí
é tupi
é maligno
enlouqueci
e daí?

Sem sonhos nem despertar


Há muito o intrigava
este sonho, este desejo triste, esta ideia fixa...
Ser este o primeiro sonho ao acordar:
sono sem sonhos nem despertar.

Rir do sutil recado


Rir do sutil recado.
Tua nudez me quer e eu a amo.
Corpos fiéis a leis insanas.
Erguer rios para atravessar pontes.

Rir do grácil recado.
Tua nudez me ama e eu a quero.
Corpos sãos. Leis fiéis. 
Surfar arrecifes para caminhar ondas.

Ri do hábil recado.
Tua mudez me quer e eu a clamo.
Corpos infames. Leis débeis.
Mergulhar no ar azul para nadar no cerrado.

E está tudo errado...

OM

Em torno de mim um silêncio incrível.

Por dentro de mim ressoam mil tambores.

Uma alma me escuta.

Mil almas rodopiam no salão.

Onde está o salão?

Dentro das mil almas.

Onde estão as almas?

Rufando tambores.

Dentro e em torno de mim.

Onde está o silêncio?

No som.

Trança

 Minha lança observa seu alvo.

Seu alvo sorri para minha lança que se lança.

Que bela e estranha dança...