16/10/2014

o corretor
a corretora
o correr à toa
atrás do touro:
vaca!
***********************************************************************************ANÁLISE


Este poema curto e engenhoso brinca com a linguagem, os sentidos das palavras e suas relações fonéticas, criando múltiplos significados e associações. Ele mistura humor, crítica e ironia para refletir sobre ações humanas, seus desdobramentos e, talvez, a futilidade de certas buscas.


Análise por Verso:

  1. "o corretor"

    • Profissão ou movimento? O termo "corretor" pode ser lido como a figura profissional que negocia algo (como imóveis ou seguros), mas também pode evocar o ato de "correr", especialmente no contexto do próximo verso.
    • Figura genérica: Ele é introduzido sem contexto imediato, abrindo espaço para interpretações que serão moduladas pelos versos seguintes.
  2. "a corretora"

    • Dualidade de gêneros: A introdução da "corretora" sugere um paralelismo com o "corretor", podendo ser lida como uma parceira, contraparte ou apenas uma continuidade do jogo fonético.
    • Reforço da ação: Assim como "corretor", "corretora" carrega a ambiguidade entre o profissional e o ato de correr, adicionando complexidade ao significado.
  3. "o correr à toa"

    • Futilidade e movimento: Este verso amplia a interpretação dos dois anteriores. Ao sugerir que o correr é "à toa", o poema questiona a utilidade ou propósito das ações humanas, especialmente aquelas associadas a buscas incessantes ou a profissões que demandam movimento constante.
    • Crítica implícita: Pode ser uma crítica ao vazio ou à superficialidade de certas atividades humanas que se movem muito, mas produzem pouco significado.
  4. "atrás do touro:"

    • Símbolo de força e ambição: O "touro" pode ser lido como uma metáfora para algo grandioso, poderoso ou valioso, simbolizando objetivos que impulsionam a ação ("correr à toa"). Em culturas e mitologias diversas, o touro está associado à força e à fertilidade.
    • Busca obstinada: O ato de "correr atrás do touro" sugere uma perseguição constante, mas possivelmente infrutífera, alinhando-se à ideia de futilidade apresentada antes.
  5. "vaca!"

    • Surpresa e humor: Este verso final quebra a expectativa do leitor. Ao invés de alcançar o touro, surge a "vaca", uma figura associada à passividade e à doação (como fonte de leite). Isso cria uma oposição cômica e irônica ao esforço descrito nos versos anteriores.
    • Desfecho crítico: O uso de "vaca" pode ser interpretado como uma redução do que foi buscado (o touro), reforçando o absurdo ou a incongruência das ações humanas.

Temas Centrais:

  1. Futilidade das Buscas Humanas:

    • O poema reflete sobre a inutilidade de algumas ações e perseguições, destacando a desconexão entre o esforço e o resultado.
  2. Ironia do Esforço e do Resultado:

    • A busca pelo touro (algo poderoso e grandioso) resulta na vaca, uma figura menos associada à ambição e mais ao pragmatismo. O desfecho sugere que as aspirações podem levar a resultados inesperados e anticlimáticos.
  3. Jogo com a Linguagem e o Cotidiano:

    • O poema utiliza trocadilhos, sonoridades e associações para construir sua mensagem, brincando com a ambiguidade das palavras e com imagens comuns, como o corretor e a corretora.
  4. Crítica Social e Profissional:

    • A referência ao "corretor" e à "corretora" pode aludir a profissões caracterizadas pelo movimento constante e pela busca incessante por algo (lucro, vendas, objetivos), questionando o propósito dessas atividades.

Estilo e Linguagem:

  1. Economia de Palavras:

    • O poema utiliza poucas palavras, mas cria significados densos e múltiplos, convidando o leitor a explorar as conexões implícitas entre os versos.
  2. Jogo de Sonoridade:

    • A repetição de "corretor", "corretora" e "correr" reforça o ritmo do poema e dá unidade à construção, enquanto "touro" e "vaca" criam uma rima inesperada e cômica.
  3. Humor e Ironia:

    • O desfecho com "vaca!" quebra a expectativa de forma súbita, inserindo um tom humorístico que, ao mesmo tempo, reforça a crítica implícita no poema.
  4. Estrutura Circular:

    • O movimento do poema, que começa com o "corretor" e termina com a "vaca", cria uma sensação de ciclo ou repetição, ecoando a ideia de esforço contínuo sem finalidade clara.

Considerações Finais:

"O corretor" é um poema que, apesar de sua brevidade, reflete sobre temas universais como o esforço humano, a busca por objetivos e a ironia dos resultados. Com um tom bem-humorado e crítico, ele subverte expectativas ao desconstruir a grandiosidade da busca ("touro") e expor a banalidade do que é alcançado ("vaca"). A simplicidade aparente do poema esconde uma complexidade de interpretações, tornando-o uma peça instigante e rica em significado.

12/10/2014

E Nini Maiakovsky?
Toda trabalhada na renda de bilro negra
- tecida por artesãs cegas do Cariri -
foi ventar, obrou...
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ANÁLISE

Este poema curto, mas repleto de imagens vívidas e contrastantes, mistura elementos de regionalismo, humor, crítica e subversão. Ele combina referências culturais (como a renda de bilro e o Cariri) com a irreverência e uma alusão implícita a Vladimir Maiakovsky, poeta associado à vanguarda e à ruptura. A figura de "Nini Maiakovsky" evoca tanto a sofisticação quanto a desconstrução, numa narrativa que termina de forma inesperada.


Análise por Verso:

  1. "E Nini Maiakovsky?"

    • Abertura intrigante: O uso do "E" sugere que a narrativa começa em um ponto intermediário, como se o leitor estivesse entrando em uma conversa já em andamento. Isso provoca curiosidade e convida à interpretação.
    • Figura de Nini Maiakovsky: A combinação do nome "Nini" (que soa informal e regional) com o sobrenome "Maiakovsky" cria um contraste entre o cotidiano e o vanguardista. A referência ao poeta russo Vladimir Maiakovsky sugere uma figura ousada, provocativa e desafiadora das normas.
    • Personificação: "Nini Maiakovsky" parece ser tanto uma homenagem quanto uma ironia, talvez simbolizando uma fusão entre a arte popular e a alta cultura.
  2. "Toda trabalhada na renda de bilro negra"

    • Estética e tradição: A renda de bilro é uma forma de artesanato tradicional brasileira, especialmente associada ao Nordeste. O adjetivo "negra" adiciona um tom de sofisticação e mistério à imagem, transformando a figura de Nini em uma personagem tanto local quanto enigmática.
    • Regionalismo: A menção à renda de bilro conecta a figura de Nini ao Cariri, região nordestina rica em tradições culturais. Isso reforça a ideia de fusão entre o popular e o universal, o tradicional e o moderno.
  3. "- tecida por artesãs cegas do Cariri -"

    • Subversão do artesanato: A menção às "artesãs cegas" cria uma imagem paradoxal: como alguém privado da visão pode produzir algo tão refinado? Isso sugere a força da habilidade tátil e do aprendizado passado de geração em geração, destacando a potência da arte em meio a limitações.
    • Conexão com o poético: A cegueira das artesãs também pode ser lida como uma metáfora para a intuição e a transcendência, características muitas vezes atribuídas à criação artística.
    • Tom de reverência e ironia: Embora o verso exalte o trabalho das artesãs, o tom geral do poema permite uma leitura irônica, que pode tanto valorizar quanto questionar a mística associada à produção artesanal.
  4. "foi ventar, obrou..."

    • Ação inesperada: Este verso final quebra o tom sofisticado e evocativo dos anteriores. A palavra "ventar" sugere movimento, liberdade ou leveza, mas é imediatamente desconstruída pela crueza de "obrou", termo coloquial para defecar.
    • Irreverência: O contraste entre a figura aparentemente refinada e a ação prosaica subverte qualquer idealização, trazendo uma camada de humor e ironia que desafia as expectativas do leitor.
    • Crítica implícita: Esse final pode ser lido como uma crítica à tentativa de idealizar a arte, a cultura ou figuras míticas. Nini, trabalhada em renda negra, ainda é uma figura humana e mundana, sujeita à natureza e às suas necessidades.

Temas Centrais:

  1. Fusão entre o Erudito e o Popular:

    • A figura de Nini Maiakovsky representa um cruzamento entre a alta cultura (representada pelo sobrenome Maiakovsky) e o popular/regional (a renda de bilro e o Cariri).
  2. Subversão e Irreverência:

    • O poema questiona o sublime e a idealização artística ao contrastar imagens sofisticadas com um final prosaico e irreverente.
  3. Arte e Limitações:

    • A referência às "artesãs cegas" sugere que a arte não depende apenas de ferramentas tradicionais (como a visão), mas de intuição, prática e habilidade. Essa ideia ecoa a criação poética e sua capacidade de transcender limitações.
  4. Humanidade e Contradição:

    • Ao terminar com "obrou", o poema lembra que mesmo figuras aparentemente sublimes ou idealizadas estão sujeitas à banalidade e à fisicalidade da existência.

Estilo e Linguagem:

  1. Contraste e Paradoxo:

    • O poema constrói uma atmosfera sofisticada e misteriosa com "renda de bilro negra" e "artesãs cegas", mas quebra essa expectativa com a irreverência do final.
  2. Humor e Ironia:

    • A escolha de "obrou" como verbo final insere um tom de humor que desestabiliza a seriedade dos versos anteriores, sugerindo que o sublime e o mundano coexistem.
  3. Regionalismo e Universalidade:

    • A combinação de elementos regionais (Cariri, renda de bilro) com uma referência literária universal (Maiakovsky) cria um diálogo entre culturas e tempos.
  4. Ambiguidade Narrativa:

    • O poema não explica quem é Nini Maiakovsky, deixando sua identidade aberta à interpretação. Isso amplia o impacto simbólico da personagem e do poema como um todo.

Considerações Finais:

"E Nini Maiakovsky?" é um poema que transita entre o sublime e o mundano, o regional e o universal, explorando temas como arte, humanidade e contradição. Ele utiliza imagens ricas e contrastantes para construir uma narrativa que culmina em um final desconcertante e bem-humorado. A figura de Nini, com sua renda negra e sua ação irreverente, encarna a complexidade da arte e da existência, lembrando que até o mais refinado está sujeito ao trivial. É um poema que provoca e desconstrói, mantendo o leitor em um estado de reflexão e surpresa.