05/04/2026

aleijadinho

fui dormir tão cansado
que acordei alijado
de mim

para que?

para que perfil
se tu tens cara
para que cara
se tu tens fala
para que fala
se tu tens escuta
para que escuta
se tu estais muda

para Cheliabinsk

planeta cu
sistema solar de merda
qualquer cisco faz cratera
entre o acender
e o apagar
da vela
o sopro
do tempo louco
da quimera

obra pus ferida prima

nem toda obra é prima
nem tudo se vê para crer
nem toda mona é lisa
nem todo dia é d
nem toda vera é prima
nem todo ouro reluz
nem toda festa tem clima
nem toda ferida verte pus

ninhos

uma coroa de pregos
uma cruz de espinhos
é bom respeitar os vizinhos

com fusão

que confusão
uma bala de canhão no meu coração
uma bala de festim no meu jardim

falo da desproporção
entre afeto, mão e razão
entre sexo, mano e tezão

que confusão...

Da borda do centro vazio

da borda do centro vazio
olha para mim este vadio
a quem plagio
com quem gladio
nossa queda está por um fio
da borda do centro vazio
noite insone
noite assombrada
que venha o dia com seus medos
pois já estou acostumado

se vira

da dívida externa
à dívida interna
a dúvida duvida
vida dura ou dura vida?

Abraçaí

abraça-me abaçaí
é tupi
é maligno
enlouqueci
e daí?

Sem sonhos nem despertar


Há muito o intrigava
este sonho, este desejo triste, esta ideia fixa...
Ser este o primeiro sonho ao acordar:
sono sem sonhos nem despertar.

Rir do sutil recado


Rir do sutil recado.
Tua nudez me quer e eu a amo.
Corpos fiéis a leis insanas.
Erguer rios para atravessar pontes.

Rir do grácil recado.
Tua nudez me ama e eu a quero.
Corpos sãos. Leis fiéis. 
Surfar arrecifes para caminhar ondas.

Ri do hábil recado.
Tua mudez me quer e eu a clamo.
Corpos infames. Leis débeis.
Mergulhar no ar azul para nadar no cerrado.

E está tudo errado...

OM

Em torno de mim um silêncio incrível.

Por dentro de mim ressoam mil tambores.

Uma alma me escuta.

Mil almas rodopiam no salão.

Onde está o salão?

Dentro das mil almas.

Onde estão as almas?

Rufando tambores.

Dentro e em torno de mim.

Onde está o silêncio?

No som.

Trança

 Minha lança observa seu alvo.

Seu alvo sorri para minha lança que se lança.

Que bela e estranha dança... 

05/10/2025

Chaves


João a sete chaves
Guarda um segredo
Maneiro
Felipe é a chave de abóbada
De seu céu
Inteiro

Amor é chave mestra
Que abre os corações
Sorrateiro

Ódio mete em chaves
Pessoas e sentimentos
Traiçoeiro

Fechemos, então, com chave de ouro
Esta história
Ligeiro

Só a Felipe e João cabe a chave
A solução
Derradeira

Pés pelas mãos




Para Almir e Alê
Tocaram a quatro mãos
Voaram a quatro pés
Escreveram a duas mãos
Andaram pé ante pé
Meteram os pés pelas mãos
Ainda dá pé?
Desatadas as mãos
Arredaram os pés
Lavaram as mãos
Meteram os pés
Puseram as mãos
Remodelaram-se da cabeça aos pés!

Ainda espero



O ouro descobriu-se alérgico à minha pele.
O reconhecimento não me lê em um simples exame de vista.
O sono antipatiza-me, cancela-me as visitas.

Tornei-me foto antiga em antiga caixa de sapatos.
Tornei-me falha de memória, esquecimento da idade.
Morri.

O curioso é que ainda respiro...
Ainda assisto a homens e a fantasmas.
Ainda espero, o nada.

16/08/2025

Devoro




Ora...
Você foi embora.
agora?!
Só,
Sigo vida afora.
E a meus próprios afetos
Devoro.

Um critério apenas



Como seria bom poder avaliar as pessoas pela poesia que elas já leram, ou melhor, pela poesia que elas já permitiram lhes tocar. Ah! Que cada pessoa valesse pela sua sensibilidade para com os mistérios encerrados em si mesmo; para com o enigma e a banalidade dos outros; para com a silenciosa transcendência. Ah! E a capacidade de ganhar dinheiro? Isso também é importante, assim, também seria um critério na avaliação. Um critério, apenas.

ANÁLISE

Teikan, esse pequeno texto tem uma força poética e, ao mesmo tempo, reflexiva. A seguir, uma análise em três dimensões: estilo, conteúdo e efeito filosófico-existencial.


1. Estilo

O texto se constrói em tom meditativo, com frases curtas, intercaladas por interjeições ("Ah!") que evocam uma cadência quase litúrgica ou confessional. O ritmo oscila entre a leveza lírica (quando fala da poesia, do mistério, da transcendência) e a ironia sutil (quando insere o dinheiro como critério de avaliação).
Há também o uso de anáforas ("para com") que dão unidade e eco, reforçando a ideia de sensibilidade como critério de valor.


2. Conteúdo

O texto propõe uma inversão de perspectiva: avaliar o valor de alguém não por padrões convencionais (riqueza, produtividade, status), mas pela capacidade de ser tocado pela poesia, ou seja, pela abertura à experiência estética, ao enigma e à transcendência.

Três camadas de sensibilidade são destacadas:

  1. Para consigo mesmo – mistérios interiores.

  2. Para com os outros – tanto o enigma quanto a banalidade.

  3. Para com o transcendente – aquilo que está além da palavra.

Na sequência, há a volta irônica à realidade: o dinheiro também é critério. Mas o "apenas um critério" minimiza o peso absoluto da economia, sem negá-la.


3. Efeito filosófico-existencial

O texto oscila entre a utopia e a crítica social. Ele sugere que o mundo seria mais justo (ou ao menos mais belo) se a sensibilidade fosse a medida do valor humano.
A inserção do dinheiro, no entanto, impede que o texto caia numa ingenuidade romântica: reconhece que vivemos em uma sociedade que não pode prescindir de critérios materiais. Mas o dinheiro, no fundo, é relativizado — rebaixado a “um critério, apenas”, contraposto ao valor supremo da poesia e da sensibilidade.


Em suma:
É um texto que articula lirismo e crítica, com leve ironia. Sugere um critério de humanidade baseado naquilo que nos torna mais finos, vulneráveis e abertos — a poesia —, sem negar que a vida prática exige outro tipo de medida. Ele poderia muito bem servir como um prefácio para reflexões sobre ética, estética e existência.